Subtrair até permanecer apenas beleza cristalina
- Pedro Frazao

- May 27
- 2 min read

A sala de prática estava lotada. As janelas fechadas. O calor aumentava a cada minuto. Era a minha terceira aula de yoga. Eu estava mais perdido que uma criança de cinco anos separada da mãe num parque de diversões. Esforçava-me para acompanhar os comandos do professor num idioma que parecia vindo de outro universo. Olhar para os outros alunos não ajudava: eles fluíam como vento de outono. Se contorciam em posições impossíveis. “O que estou fazendo aqui?” Após todo o frenesi, deitamos numa tal postura do cadáver. De repente, só silêncio. Uma sensação de paz nunca sentida antes. Isso me fez voltar.
Nos meus primeiros anos de prática, acreditava que o segredo do yoga era conseguir me contorcer como a galera daquelas primeiras aulas. Fazer a invertida sobre a cabeça iria iluminar todos os meus chakras. Meus problemas sumiriam, e eu me tornaria uma pessoa mais bem resolvida. A sensação de realizar o primeiro sirsasana foi incrível. Porém, os problemas e dilemas da vida não desapareceram como num passe de mágica. A vida real continuava exatamente como antes.
O yoga tem a peculiaridade de nos enganar constantemente. Na verdade, o yoga não tem nada a ver com isso — somos nós que projetamos ideais e imaginamos uma série de coisas.
Outro dia, abri o Instagram. Havia a foto de um sujeito na postura do Guerreiro Dois. O cara era uma bomba de músculos e veias. Gordura corporal facilmente abaixo de 6%. Foto em estúdio. Luz, cenário, tudo perfeito. Em outra foto, uma praticante estava contorcida à la Cirque du Soleil, num lugar paradisíaco. As imagens eram lindas. É fácil se desviar e acreditar que o caminho do yoga passa por imagens em 4K, corpos perfeitos e estética irretocável. Que o yoga é algo voltado para o olhar alheio.
No entanto, quanto mais você avança nessa prática, mais tem a chance de compreender que chegar a um estado de yoga é o oposto de tudo aquilo que imaginava. Praticar envolve remover sujeiras, projeções, ideais e o desejo de agradar. Praticar yoga é despir tudo o que é externo até permanecer apenas beleza irretocavelmente cristalina — algo que só você poderá, talvez, enxergar.



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